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Friday, December 27, 2013

5 - O fim, ops, o começo da odisseia em São Paulo!


*Entrevista realizada no dia 7 de outubro de 2011.
Matéria originalmente veiculada no Blog Meninas do Esporte, em 2011. 

Sabe aquele lance de chegar de viagem e “enrolar horrores” para desarrumar a mala? Pois é. Fiz isso virtualmente. Depois de minha ida à São Paulo, em outubro, mês em que estava de férias, voltei com a bagagem cheia de novidades para os leitores do blog. A odisseia começou a ser narrada pelo fim, passamos pelo meio, e ficou faltando, claro, o começo.

E foi tão especial o começo! No aeroporto Santa Genoveva, na fila de embarque, o Thiago me cutuca para mostrar que tem atleta no nosso voo! Sim, se no post “O início, o meio e o fim...”, eu fiz suspense, aqui não tem nada de segredos. Lars Grael. Foi ele quem entrevistei nos ares.

Imagina a minha adrenalina! Já acomodada na poltrona do avião, pensava a melhor hora de abordá-lo. “E se ele não quiser falar? E, aí, chego lá, falo que sou jornalista e pergunto se não quer me dar uma entrevista em pleno voo?” Enquanto minha mente borbulhava, a aeronave deixava a pista de Goiânia. Mais alguns minutos, e já nos era permitido tirar o cinto. Pronto, peguei máquina fotográfica, gravador digital, bloquinho de notas e caneta (gravadores sempre falham. E, pra não me deixar mentir, aconteceu! A bateria do equipamento acabou no meio da entrevista, acreditam???).

Mas enfim, com o material em mãos, lá vou eu, pé ante pé, procurando o Lars Grael no avião. Claro que milhões e trocentos mil passageiros ficaram me olhando. Eu, nem aí, firme no propósito de entrevistá-lo para o blog. Pergunto para um dos comissários de bordo:

 - Por favor, sabe onde está sentado o Lars Grael?

 - Não sei, tem que perguntar para...

Lars Grael
Não me lembro, agora, pra quem ele falou que eu tinha de perguntar. Sei que agradeci e resolvi ir pro começo da aeronave. E na primeira poltrona... Lá estava ele lendo notícias de um caderno de esportes.

 - Boa tarde! Com licença! Tudo bem? Sou jornalista em Goiânia e tenho, junto com uma amiga, um blog de esportes. Será que podia te entrevistar?
 - Claro.

A poltrona do meio estava vaga – na da janela havia uma senhora; o Lars estava na do corredor. Me acomodei na do meio.

 - Qual o seu nome? – pergunta Lars.

 - Carla (Fiquei tão preocupada em falar que era jornalista, que tinha um blog e coisa e tal, que esqueci o básico: falar meu nome...)

*****

No gravador, foram cinco minutos e vinte e dois segundos de entrevista – até a bateria acabar! Conversamos mais um pouco off-line. Perguntei a ele o que achava da situação do aeroporto Santa Genoveva. “Um aeroporto velho, infelizmente prometem mudanças que não acontecem. É necessário um novo terminal de passageiros”.

Lars falou ainda que começou a velejar por influência do avô materno, que era dinamarquês, e que seu nome, em português, seria equivalente a Lourenço. Perguntei do jornal que estava lendo – era o caderno de esportes do Correio Braziliense – e ele usou um termo que adorei: “monocultura esportiva”. “Os jornais, o noticiário de forma geral, tentam impor uma monocultura esportiva quando priorizam só o futebol em suas páginas. Gosto de ler o Correio, porque ele tenta falar de outras modalidades também, mas se você olhar aqui, de 12 páginas, 10 falam de futebol”. E era verdade, nós contamos o número de notícias.

O velejador esteve em Goiânia no dia 6 de outubro para dar uma palestra para funcionários de uma incorporadora de imóveis. Diz que gosta da nossa cidade e que já veio aqui mais de uma dúzia de vezes. “Morei 15 anos em Brasília”. Atualmente está no Rio de Janeiro.

Falar do currículo dele, nem precisa, né! Mas vamos lá: Paulistano, 47 anos, tem dois títulos olímpicos, um mundial, oito sul-americanos e 18 brasileiros. (Se errei a conta, me desculpe, Lars!). Quando sofreu o acidente, em 1998, tinha 34 anos. Este ano, na classe star, foi campeão brasileiro e sul-americano. O atleta foi ainda secretário nacional de Esportes, entre 2001 e 2002, e secretário estadual de Esportes, em São Paulo, entre 2003 e 2006.

*****

Bem, menino quando demora a desarrumar a mala, chega com aquela carinha de choro pra pedir desculpas pra mãe. As minhas desculpas vão para os leitores do blog e para o Lars Grael – por ter demorado tanto tempo pra publicar a entrevista, realizada no dia 7 de outubro de 2011. Por isso, perdoem alguns assuntos que ficaram defasados. Erro meu, assumido e confessado. No mais, gostaria de mais uma vez agradecer ao velejador pela entrevista. Lars foi muito simpático e educado. Obrigada!

(Segue nosso bate-papo)



Time do coração:
Torço pro Vasco da Gama, que atualmente está em alta, então está até fácil de falar (risos). Não sou fanático por futebol, mas gosto, acompanho e vejo o Vasco hoje em bom momento.

O que espera da seleção brasileira hoje (07/10, contra a Costa Rica) e no amistoso de terça-feira (11/10, contra o México)?
No mínimo, uma goleada. Acho que a seleção vem acumulando maus resultados, então tenta motivar a torcida buscando adversários fracos, mas acho que isto é enganar um pouco a realidade. O negócio é enfrentar a Argentina completa, a Alemanha, Inglaterra, Espanha, isto é o mais importante.

Nota da blogueira: Brasil passou apertado pela Costa Rica, por 1 a 0, e venceu o México, de virada, por 2 a 1.

Quem você acha que falta o Mano escalar?
Está aí uma boa pergunta. É difícil a gente tentar interferir no trabalho de um profissional que tem grande conhecimento de causa, que tem todo um mérito para estar técnico da seleção brasileira. Eu prefiro não opinar sobre isso.

Nas palestras motivacionais que você faz, o que principalmente aborda?
Quase sempre faço um paralelo, uma analogia entre a minha trajetória como cidadão brasileiro, como velejador, como gestor no esporte que fui - e também em função da minha superação após o acidente - com os valores empresariais, seja a volta por cima, planejamento, metas, resultados; seja sensibilizar empresas para que possam contratar pessoas com deficiência e vários outros valores que são comuns ao ambiente competitivo do esporte e ao ambiente competitivo capitalista.

O que foi mais difícil após o acidente?
O mais difícil foi entender um sentido pra vida, aceitar uma condição minha sendo um deficiente pra quem vivia do esporte olímpico, do próprio corpo. Mas pessoas que passaram por situações semelhantes e que me trouxeram depoimentos de vida, de muita garra, superação, volta por cima, foram muito importantes. Então fui encarar a vida a partir dali, olhando pra frente, sabendo que eu tinha capacidade de ser feliz, de continuar a produzir a até mesmo de voltar a competir, e os resultados vieram de lá pra cá. (Em 2011, Lars Grael  foi campeão brasileiro e sul-americano, na classe Star).

De quem foram esses depoimentos que você falou que te ajudaram a superar esta fase?
Olha, foram vários. No meio do esporte, o falecido medalhista olímpico e recordista mundial João do Pulo; um outro, que pratica o voo livre, o Ranimiro Lotufo; o triatleta Rivaldo Martins, o surfista Alcino Neto, conhecido como Pirata, entre muitos outros. Tive também uma enfermeira do hospital Albert Einstein, chamada Cláudia, que foi muito importante pra mim.

Quantas viagens você faz por mês para dar palestras?
Já rodei as 27 capitais pelo menos duas vezes em cada uma delas. Mas eu tenho alternado meu tempo entre dias que disponho pra fazer palestras em todo o Brasil, dias que eu uso pra treinar e competir na vela, ou cuidar e dar suporte para as iniciativas de organizações não-governamentais que eu tento dar uma colaboração.

O que você espera da vela no Brasil no Pan?
O Brasil tem uma grande tradição na vela. No Pan do Rio, em 2007, venceu no quadro de medalhas da modalidade, e está indo com uma equipe muito forte para o México. Eu acho que o Brasil deve sair de Puerto Vallarta, onde vão ser as competições de vela, mais uma vez como país vencedor no quadro de medalhas. Pelo menos, estamos preparados para isso.

Que nomes você destacaria na vela que vão pro Pan?
Olha, na prancha-vela são os mesmos velejadores olímpicos, o Ricardo Winicki dos Santos, na prancha RS-X, masculino; no feminino, a Patrícia Freitas, que já foi campeã mundial da juventude e é uma promessa para os jogos de 2016; na classe Laser, o Bruno Fontes, com certeza, disputa medalha, ouro, prata ou bronze; na classe J24, temos o favoritismo do Maurício Santa Cruz e sua equipe; na classe Sunfish, nós temos o favoritismo do atual campeão mundial, que é brasileiro, Matheus Dellagnelo; na classe Lightning, nós temos um grande favorito a medalha, talvez não a de ouro, que é o Claudio Biekarck.
  

Saturday, November 30, 2013

4 - No Museu do Futebol

Outubro de 2011

Terça-feira nublada em São Paulo. 11 de outubro. Depois de um café da manhã reforçado em uma padaria na Haddock Lobo - com direito a misto-quente paulista e pão-de-queijo recheado -, eu e o Thiago seguimos para o Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho, o Pacaembu, para visitar o Museu do Futebol. Gente, lá é muito melhor do que imaginava! Até quem não gosta de futebol, iria curtir o local!

Na entrada, no térreo, uma exposição de bolas usadas em Copas do Mundo – de 1970 a 2010, incluindo, portando, até a polêmica Jabulani. Ao subir a escada rolante para o primeiro piso, somos recepcionados por uma projeção do rei Pelé dando boas-vindas, em português e inglês – yes, we can, rs! (Não conheço nenhum museu fora do país, mas ouso dizer que o do Futebol é, sim, de primeiro mundo).

E nem deu tempo de fazer pose!


Com variados recursos tecnológicos e uma boa dose de interatividade, somos surpreendidos em cada espaço do museu. Na área denominada “Anjos Barrocos”, projeções de 25 grandes craques brasileiros surgem em mega-telões diante de nossos olhos – de Nilton Santos, nascido em 1925, até ao caçulinha da turma, Ronaldinho Gaúcho, de 1980.

Em seguida, você pode escolher em um balcão os gols que quer ver, e ouvir depoimentos de personalidades – como Lima Duarte, Soninha Francine, Marcelo Tas, entre outros - sobre os gols mais bonitos que viram. Ao lado, pode também se dar ao luxo de escutar narrações de grandes partidas feitas pelo rádio, de 1934 a 2006.

Em uma das partes do passeio, nos encontramos debaixo das arquibancadas do Pacaembu e somos presenteados com projeções de cenas de torcedores durante partidas de futebol.  “Exaltação” é o nome deste trecho. Tem ainda uma série de fotos fantásticas que mostra como o futebol chegou ao país – e o mais interessante é que além das imagens do esporte, há também retratos da sociedade da época que contextualizam o momento. Em 1910, por exemplo, o Fluminense, como vários outros times brasileiros, não aceitavam negros e mestiços entre seus jogadores ou associados.

Há ainda a sala do “Rito de Passagem”, que mostra nossa derrota para o Uruguai na Copa de 50, no Maracanã; a sala das Copas do Mundo (com destaque também para o que acontecia de importante nos cenários político, econômico e cultural em cada ano deste evento); fotos de Pelé e Garrincha; números e curiosidades sobre o futebol; sala 3D (esta parte não é muito boa, não; acho que é a única que não gostei); espaço para crianças e adultos darem seu chute à gol e muito mais.

Ao todo, são 15 salas temáticas, dispostas em uma área de 6,9 mil metros quadrados, com 1.442 fotos expostas e seis horas de vídeos disponíveis aos visitantes. É realmente incrível! Mas a nossa principal torcida é para que todos estes grandes lances registrados não sejam apenas matéria do passado e, muito menos, se tornem raridade. Queremos o futebol arte também presente no presente (redundante assim mesmo) para que, num futuro não tão distante assim, as jogadas da atualidade possam também ser eternizadas na nossa memória e serem dignas de fazer parte do Museu do Futebol.    


Tuesday, July 02, 2013

3 - No meio de campo

Outubro de 2011

Depois de começarmos pelo meio da história, com os torcedores corinthianos chegando ao Pacaembu - naquele jogo contra o Atlético goianiense - e irmos para o fim, quando encontro no aeroporto de Congonhas a delegação do Santos, que tal irmos para o início de toda esta jornada? Nananinanão! Nesta série, o começo será nosso The End! Por isso, nos próximos dois posts sobre São Paulo, continuamos embolados – no bom sentido, claro! – no meio de campo.

Mas seguinte: vê se vocês concordam: já que estamos neste hiato, neste pit-stop, neste intervalo, nesta parada técnica (que outros sinônimos a gente podia colocar aqui, hein?), melhor jogarmos conversa fora num lugar charmoso, aconchegante, que tenha tudo a ver com o mundo esportivo. Dá uma olhada aqui embaixo!



E aí? Gostaram? Pois esta daí é a foto de uma das paredes do bar São Cristovão, que fica na Vila Madalena. Segundo um dos garçons com quem conversei, são cerca de 4,5 mil itens, entre fotos, flâmulas, caricaturas, capas de jornal e revista, além de 26 camisetas, que decoram o local (inclusive o teto, viu!). Muitos souverniers foram também trazidos por clientes, que lotam a casa inaugurada em 2000.  


E querem saber a melhor? O proprietário do espaço é goiano. Leonardo Silva Prado é também um dos sócios do Glória, aqui da nossa capital. O nome São Cristovão foi escolhido para homenagear um tio de Léo, que era torcedor do time da Zona Norte do Rio, campeão carioca de 1926. Muitos anos depois, o São Cristovão - o clube – voltou à mídia por ter revelado Ronaldo – o Fenômeno. O bar, entretanto, não sai da mídia. Aliás, a mídia não sai dele. Vários cronistas e jornalistas esportivos escolheram o local como point de happy-hour. A Veja São Paulo elegeu o espaço como o melhor boteco da cidade, em 2009. E com tanta propaganda, inclusive na internet, vocês acreditam se eu disser que caí lá quase de paraquedas? Andando pela Rua Aspicuelta, com o Thiago e mais um casal de amigos, pintou a indecisão: com tantos barzinhos, (brinco que a Vila Madalena é o nosso quadrilátero do Marista! Quanta pretensão, hein! rs), qual o melhor local pra sentarmos e conversarmos? Foi quando olhei pro São Cristovão e reparei naquele mundaréu de fotos de futebol que enfeitavam as paredes. Pronto! Entramos. Conversa jogada fora no mundo real naquela noite de sábado, e agora com este post, bate-papo também na seara virtual. Tin-tin!

P.S: Ah, vale destacar que, além dos petiscos e pratos servidos (uma delícia), o bar também vende camisetas retrô de vários times de futebol – a média de preço é de R$ 150.

Sunday, June 23, 2013

2 - Time do Coração / Vladimir Filho

Outubro de 2011

Promessa feita, promessa cumprida. Eis o post com a mini ping-pong, antes do jogo do Santos contra o Atlético (MG). A conversa foi com o goleiro reserva do Peixe, Vladimir, que atendia aos turistas de sua terra natal, Ipiaú (BA), no aeroporto de Congonhas (SP).

Nome: Vladimir Orlando Cardoso de Araújo Filho

Idade: 22 anos

Altura: 1,90

Natural: Ipiaú, Bahia


Com quantos anos começou a jogar futebol?

Eu comecei novinho, com 11 anos passei pelo Sport Clube Bahia e depois tive uma passagem rápida pelo interior paulista. Estou no Santos tem quatro anos.

Sempre pensou em ser goleiro ou já jogou em outra posição?

Olha, pensar a gente pensa, só que a qualidade não ajuda, daí a gente procura o gol mesmo (risos).

Depois da vitória contra o Palmeiras, no domingo, como é que o Santos encara o Atlético nesta rodada?

A gente vai forte, sabendo que a equipe do Atlético está passando um momento ruim. Mesmo assim, é uma equipe forte, então a gente tem que tomar bastante cuidado. Vamos na expectativa de ganhar o jogo.

E apesar de você estar há quatro anos no Santos, você pode falar qual é o seu time do coração?


Nós, jogadores, não temos um time do coração. A gente tem um carinho por todos os clubes que a gente passa, que a gente defende a camisa, e hoje eu sou muito grato ao Santos por tudo. 

Wednesday, June 05, 2013

1 - O início, o meio e o fim. Ou seria o fim, o meio, o início? Ou o meio...

Depois de uma breve pausa, retomo os posts do blog com meu projeto "Retrô", uma coletânea de textos/reportagens/artigos/vídeos que gostei demais e/ou me orgulhei demais de ter feito. E que tal relembrar os tempos de "Meninas do Esporte"? Publico agora uma série que escrevi para o blog, idealizado por mim e pela colega jornalista Belisa Monteiro, a partir de uma viagem a Sampa. Espero que gostem!

Outubro de 2011

Era para ser início. Daí virou meio. Agora começa pelo fim. Mas prometo que depois volto ao começo. Ou ao meio. Whatever! Mas para não dar tanto nó na cabeça de vocês, explico. Do começo. Vamos lá:

Sexta-feira, 7 de outubro, viagem marcada para São Paulo. Expectativa total e quase a certeza de que, no aeroporto de Congonhas, poderia topar com algum atleta. Câmera fotográfica e gravador nas mãos, ops, na bolsa, desde o Santa Genoveva. Preparada para uma eventual entrevista. Vai que eu encontro a delegação de um dos times que disputam o Brasileiro, como ocorreu em junho, antes da estreia das Meninas do Esporte, quando, de volta do Sul do país, me deparei com os jogadores do Flu? Naquela época, sem local para publicar material que poderia ser colhido fortuitamente. Agora, entusiasmada com a possibilidade de trazer textos diferentes para os leitores do blog. E não é que aconteceu? Eu realmente encontrei uma delegação de um time. Paulista. Foi no fim da viagem, de volta a Goiânia, no dia 12 de outubro. Mas pera aí que já entro nesta parte!

De volta ao começo. Ao meio do começo, acho. Qual não foi a minha surpresa, quando, na fila do embarque para São Paulo, ainda em Goiânia, o Thiago me cutuca para mostrar que tem atleta no nosso voo! Pronto, já tinha ali minha primeira entrevista. Mas a compartilho com vocês em um próximo post. Lembram que falei que começaria hoje pelo fim? Mas por que virou meio, Carla, como você falou no início deste texto? Ah tá, é que pensava em chegar a Goiânia e escrever tudo cronologicamente – do começo ao fim. Mas isso é cartesiano demais. Sem graça demais! Como é que, no meio da viagem, no domingo, 9 de outubro, flagro os torcedores do Corinthians indo para o Pacaembu debaixo de chuva e não coloco as fotos no blog? 


Tudo bem que elas – as fotos – não são nenhuma Brastemp (longe disso!), mas pelo menos temos um registro do fato! Ui, tô falando igual jornalista. Mas então: por isso que era início, virou meio e agora chego ao fim. Não ao fim do post! Mas à entrevista derradeira em solo paulista.

Quarta-feira, 12 de outubro de 2011.

Aeroporto de Congonhas, por volta das 13h40.

Eu no notebook, olhando e-mails e lendo as notícias de Goiânia.

 - Carla, você não vai acreditar em quem está entrando no saguão! Você vai ficar doida! – era o Thiago me avisando, mais uma vez, de que algo muito bom aconteceria.

Pronto. Antes de ficar doida, fiquei com um frio na barriga daqueles. E quando olho para trás...


Eis que surge a delegação do Santos. Começa uma correria de pessoas, disparos de flashes e eu... ainda com aquele frio na barriga.

 - Muricy, Muricy – é o povo indo atrás do técnico santista para tirar foto.

Se o Neymar estivesse aqui (tinha jogado pela seleção brasileira na noite anterior, no México), aí, sim, seria aquele fuzuê – penso eu.

Mas e agora José? Dou uma de fã, peço pra tirar foto, entrevisto? Mas você não foi preparada para isso, mulher? Minha mente é invadida por um mar de pensamentos...

E a cabeça não para – você tem que ser rápida, tem que ser rápida!

Então vai você, inconsciente! Ou consciente! Ou sei lá os termos psicológicos corretos pra usar nesta frase!

O fato é que fui... Devagarzinho. Mineirinha. Observei que o Muricy estava de boa pra tirar foto. Não negou uma. Esperei ele entrar na livraria e...



 - Boa tarde, Muricy. Posso tirar uma foto com você?

 - Claro!

 - Vocês vão jogar contra o... (Sim - queridos leitores - jornalistas, apesar de prepotentes, não sabem de tudo, nem mesmo quando cobrem uma área específica, e não decoram toda a tabela de jogos. Bem, pelo menos eu não...)

 - Contra o Atlético Mineiro...

Obrigada.

É claro que eu queria perguntar pra ele sobre a escalação do jogo, que ocorre nesta quinta-feira, mas... Sabe quando fica aquele receio de incomodar a pessoa? Pintou a dúvida, perdi o momento! E até a Bíblia diz isso: quando Pedro começou a duvidar de que poderia andar sobre as águas com Jesus, ele começou a afundar. Não, não quero traçar nenhum comparativo. E nem ser pseudo-dramática! Só coloquei o versículo mesmo porque lembrei.

Voltei pra mesa do café onde estava com o Thiago. Mas incomodada. Com a sensação de que poderia fazer mais. Coloquei meus óculos. Saí de novo, eu queria fazer uma entrevista ping-pong, nem que fosse uma mini ping-pong.

Nossa, este texto está grande! Falei no meio dele que colocaria a entrevista derradeira em solo paulista, né? Mas vamos fazer o seguinte: começar de novo em um novo post? Do começo. Ou meio. Ou fim. Vocês escolhem!

P.S: Vou decupar a entrevista e prometo que a coloco ainda hoje, antes do jogo Santos e Atlético MG, marcado para as 20h30, na Arena do Jacaré, em Sete Lagoas.

Wednesday, April 24, 2013

5 - Saudades


Olha, o caminho natural desta viagem, ou para usarmos os termos literais mesmo, desta história, era eu continuar a narrativa sobre a descoberta do câncer da mamãe. Mas assim como na vida vivida, a vida escrita também tem suas pausas, curvas, interrupções, imprevisibilidades. Faço outra rota hoje – a da saudade. Acordei lembrando tanto de você, mãe! Tanto que dói o coração, dói o corpo, dói a alma, doem os olhos de chorar. Tudo que escrevo agora vem regado de lágrimas, muitas lágrimas.


Sinto uma saudade IMENSA e profunda...
Papai, mamãe e eu (com 9 meses) 1981
De ver o seu sorriso,

De ouvir a sua gargalhada (e só quem te conheceu sabe do que estou falando),

De receber o seu cafuné – quando criança, quando adolescente, quando adulta e até quando você estava doente e me deixou deitar no seu colo,

De ouvir você falar “Relaxa, Carla; relaxa, minha filha” toda vez que me via agoniada com qualquer besteira,

De você me pagar uma casquinha de baunilha do McDonald’s toda vez que eu ia te ajudar no consultório do Conjunto Nacional,

De ver você comer seu sorvete preferido, de flocos, ou o picolé Chicabon,

De você pegar a gente na escola em Brasília, parar no “Gogó” pra comprar pão e deixar a gente comer no carro,

Do seu brigadeiro, do bolo formigueiro, da torta sonho de valsa que fez os meus 15 anos serem especiais,

Do cachorro quente que fazia no domingo, depois que chegávamos do clube, e que comíamos vendo “Os Trapalhões”,

De você montar um fogão de tijolo pra gente brincar de comidinha e acabar fazendo arroz de verdade,


De você arrumar minha lancheira e eu vibrar quando tinha “Deditos” ou pão com manteiga, açúcar e Nescau,

De você me levar para comprar os materiais escolares,

De você estudar comigo, “me tomar o ponto e a tabuada” e me ajudar a fazer caligrafia,

De você ler “Reinações de Narizinho” pra eu dormir,

De você me ensinar que é normal errar. Lembra quando eu tirei nota baixa na prova de Matemática na 3ª série? Você me disse: “Olha, a mamãe também erra. Nem sempre eu acerto quando faço um bolo, mas sempre dá pra gente consertar”,

De você fazer meus trabalhos de Artes, porque definitivamente eu não tinha nenhuma habilidade nesta área,

De você ver minha primeira cesta de basquete,

De você me deixar usar sua maquiagem antes que você saísse com o papai,

De pegar suas roupas emprestadas,

De puxar o seu cabelo,

De ouvir você tocar piano,

De ouvir sua voz quando eu estava doente: “Você vai sarar, Carla, vai sarar, minha filha”,

Daquele dia em que a gente chegava no Dei Fiori (prédio) e você me ensinou que quando não temos algo bacana pra falar, algo edificante, é melhor ficar calada,

Eu, mamãe e Thiago. Natal de 2010
De você improvisar uma árvore de Natal com galhos retorcidos e algodão (era a neve) quando estávamos na fazenda,

De você me levar para as aulas de natação, sapateado, balé,

De você me levar de táxi para eu ir ao cinema com minhas amigas no Flamboyant, em Goiânia, ou de ônibus ao Maristão, em Brasília, quando ficamos sem carro,

De você não viajar no Natal que eu ia trabalhar pela primeira vez e fazer uma das minhas comidas preferidas, bife à parmegiana,

De você vibrar quando eu passei no vestibular,

Das roupas e blusinhas que você comprava pra mim – e sempre acertava -, pois sabia que eu não tinha paciência de experimentar e tinha “preguiça” de papo de vendedor (pra falar a verdade, tenho até hoje, mãe!),

Dos filmes de amor que assistimos e choramos juntas,
 
De você ser a minha leitora ou telespectadora mais fiel – sempre elogiou minhas redações, textos, livro, blogs e matérias na TV,

De você ouvir minhas ideias e projetos mais mirabolantes,

De ouvir você falar “Carla, quem nasce bonita não tem como ficar feia” quando eu me achava a mais horrível das meninas porque usava aqueles óculos bifocais enormes,

De você “me colocar pra cima”, falar que eu era especial e inteligente quando me via chorar por ter tantos complexos,

De você me levar ao oftalmologista em Uberaba, a pé, e de, na volta, a gente parar para tomar uma vitamina,

De você tomar sol e nadar na casa da vovó,

De você me mandar lavar a louça e o banheiro, eu fazer corpo mole, você mandar de novo e dizer que não existe este negócio de “meu tempo”,

De você chegar do trabalho e trazer de surpresa bombons sonho de valsa pra mim e para as meninas (e isso depois que a gente já estava grande!),

Eu, mamãe e o colega jornalista Claudio Santa Catarina,
durante confraternização em Brasília. 2005
De você participar das minhas confraternizações de trabalho,

Das nossas conversas, das nossas orações, das nossas idas à igreja Sara Nossa Terra,

De você me ensinar que a gente sempre devia tratar bem os rapazes mesmo quando não se está a fim deles,

Das suas broncas, dos seus NÃOS e até das nossas discussões,

Dos seus sonhos, da sua garra, da sua luta ainda maior para criar nós três depois que o papai morreu,

De irmos à churrascaria e você pedir picanha sem parar,

Da feijoada que você fazia para o Thiago e de como você gargalhava das piadas dele,

De ver você comer jabuticaba,

De ouvir você falar “Eu te amo muitão”,

E de falar pra você “Eu te amo muitão”,

Do seu choro e alegria quando casei, do seu choro e alegria quando engravidei.

Saudade IMENSA e profunda

Da sua fé
Das suas dúvidas
Da sua voz
Do seu beijo
Do seu abraço
Do seu cheiro
Do seu toque
Saudade IMENSA e profunda

De você, mãe.

P.S1: Estava aos prantos quando comecei a escrever, mas termino o texto serena e feliz. Na verdade, extremamente grata a Deus por ter vivido tantos momentos bons com você.


P.S2: Aos queridos leitores do blog: por ora, faço uma pausa nos relatos sobre a descoberta da doença da mamãe. Relembrar tudo estava me fazendo sofrer. Pode ser que um dia eu consiga contar esta história. Pode ser que não. Por enquanto, fico com as ótimas lembranças dos 31 anos que Deus permitiu que eu desfrutasse ao seu lado, mãe. 

Monday, April 08, 2013

4 - O início da descoberta


*As datas de todos os textos se referem ao ano de 2012.

A BR-060, entre Goiânia e Brasília, nunca foi tão extensa. Duas horas, duas horas e meia de percurso? Não, para mim foi simplesmente uma eternidade. De angústia. De ansiedade. De preocupação. De medo. De tensão. Era difícil controlar o pensamento.

 - Senhor, por favor, que eu possa ver a minha mãe! Senhor, permita que eu veja a minha mãe!

Eu não imaginava o que estava por vir, mas, sim, temi o pior. A madrugada não tinha sido boa. O dia anterior à viagem, 21 de março*, aliás, não foi nada aprazível. Já no meio da manhã, sobrancelhas franzidas na primeira conversa que tive por telefone com a Renata. Eu estava saindo da sala de cinegrafia da TV Brasil Central quando nos falamos pela primeira vez.

 - Vamos levar a mamãe ao psiquiatra novamente e depois ao INSS para tentar uma licença médica.

No início do mês, minha mãe tinha apresentado sinais de estresse, estafa e confusão mental. Imaginamos que poderia ser um princípio de depressão, em função de outras crises que ela já havia passado anteriormente. Mas os medicamentos prescritos pelo médico não surtiam efeito. O quadro de mamãe piorava: ela começava a ter problemas de fala, memória e coordenação motora.

- Carla, o doutor Marcelo pediu uma tomografia de crânio com urgência.

Novamente Renata me mantinha informada. Elas seguiram para o INSS; os peritos deram licença médica para mamãe. Ela realmente não estava bem.

À tarde, eu ainda na TV, tensa, preocupada, e uma nova ligação.

 - Tia Vera (irmã de minha mãe) falou com o doutor Marcelo. Parece que ele suspeita de princípio de AVC (acidente vascular cerebral). Estamos todas indo para o Hospital Santa Luzia.

Eu não acreditava. Andava de um lado para o outro no pátio interno da Agecom. AVC? Minha mãe? Como assim?

No carro, antes de engatar a primeira e seguir para casa, liguei pra Renata de novo. Eram por volta das 18 horas.

 - Ainda estamos esperando para sermos chamadas para o exame.

Gente, como assim? – pensava. A tomografia não é de emergência?

Segundos, minutos, horas se passaram. Só a minha agonia que não.

Pouco mais de 21 horas. O telefone toca. Thiago atende. Eu o observo, o semblante é sério.

 - Anhan.

 - Anhan.

 - Anhan.

 - E Renata...

 - U.T.I.

São essas as poucas palavras das quais me lembro daquele dia...

 - U.T.I.

Ú.Tê. I. Ú.Tê. I. Ú. Tê. I. Sua mãe precisa de uma Ú.Tê. I.

As letrinhas antipáticas reverberavam, sem parar, sem parar, sempararsempararsemparar na minha mente. E eu já estava aos prantos.

- Calma, Carla! Calma, Carla.

Após desligar o telefone, Thiago teve a árdua tarefa de tentar me tranquilizar.

 - O exame ficou pronto, amor. Sua mãe está com uma lesão na cabeça. Mas fique tranquila, ela está no hospital, está sendo assistida. Vai ficar tudo bem!

E nós caímos de joelho. Oramos. Clamamos.
          
Meu choro, ora intenso, ora sussurrado, não conseguia espantar meu medo. O telefone tocou novamente. E a situação, que já era insuportavelmente difícil, ficou inacreditavelmente dolorosa. Faltava uma semana para vencer o tempo de carência do plano de saúde da minha mãe. O hospital não aceitava interná-la. Para ela ficar lá, pediram R$ 10 mil.

 - A gente pega um empréstimo amanhã, Renata, a gente se vira, mas pode internar a mamãe.

Poucos minutos depois, novo telefonema.

 - Carla, estão pedindo R$ 50 mil agora. E só para começar.

Choro em Brasília. Choro em Goiânia. Choro durante o percurso Goiânia-Brasília. E a BR-060 nunca foi tão extensa.

(Continua).