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Sunday, November 22, 2009

Che Guevara e seu Alberto


Ela poderia passar despercebida. Afinal, como tantas outras, ornamenta paredes, bancadas, estantes. Não há nada de espetacular. Nada de diferente. Uma simples imagem, difundida mundo afora e sem referências de laços com a vida de seu Alberto. Mas a foto disposta na bancada lateral da sala 332, perto de uma máquina de pastel, traz revelações inimagináveis. Lembranças de 1961...

Fim de uma tarde quente que judiou do goianiense. A meteorologia registrou máxima de 32ºC. Mas vá entender: ele, gringo, parecia não se importar. Pelo menos não o suficiente para abdicar da sua farda militar verde oliva. E da sua barba. Alheio às condições climáticas daquele sábado de agosto, falou com solidez a um pequeno grupo de jovens. Praticamente meninos, 20 anos, 20 deles reunidos em uma sala de aula da Escola Técnica Federal, localizada no Centro de Goiânia. Sim, eles preferiram ficar sentados em carteiras estudantis a aproveitar os momentos de lazer que o fim de semana, por ventura, lhes reservaria. Afinal, estavam diante de um visitante ilustre. De um encontro camuflado. De orientações históricas. Quarenta minutos? Não interferiria na folga deles. De modo algum. Renderia, na verdade, relatos fascinantes. De quem conheceu Che Guevara não somente por fotos, camisetas, bandeirolas ou diários. Mas que ouviu o espanhol do argentino, o espanhol do ministro cubano.

“Senti uma emoção de estar vendo uma pessoa que tinha ideais bem firmes e que a gente procurava se espelhar. Ele era uma pessoa carismática, muito atenciosa”, ressaltou seu Alberto, um dos jovens goianienses que assistiu a “mini-palestra” de Che na Escola Técnica Federal.

Eu, boquiaberta, ainda incrédula.

“O Che veio em Brasília receber uma condecoração e aí deu um pulinho até aqui em Goiânia. Coisa rápida”, continuou.

Após conferenciar com o sr. Janio Quadros, o ministro cubano "Che" Guevara foi condecorado ontem pelo presidente da Republica com a Grã Cruz da ordem Nacional do Cruzeiro do Sul. A outorga da condecoração, aliás, está suscitando criticas ao presidente inclusive, pelo que se adianta, para a crise política de que é figura central o sr. Carlos Lacerda. Em entrevista à imprensa, Guevara falou sobre a posição assumida pelo Brasil em Montevidéu: "Foi sem duvida o maior fator para que Cuba fosse tratada na Conferencia de Punta Del Este como país americano". Manifestou tambem "o testemunho do agradecimento do governo cubano pela posição do Brasil". Depois de ter almoçado com o prefeito de Brasilia, Guevara partiu rumo a Havana ontem, às 15 horas.


(Folha de São Paulo. Domingo, 20 de agosto de 1961.



Neste texto foi mantida a grafia original)

Partiu para Havana, mas passou pela capital de Goiás. O que os jornais não noticiaram foi relatado a mim por seu Alberto.

- Depois dessa reunião, o Che veio ser padrinho de casamento de uma família no Setor Universitário. Não sei se no civil ou religioso. Sei que ele foi padrinho; isso é uma certeza

Pronto! Se já era demais pra minha cabeça o Che ter vindo em Goiânia, imagine o fato de ele ter sido padrinho de casamento no Universitário. Che de terno? Será?

- E como ele estava? De terno?

- Não sei, não fui no casamento.

- E como o senhor ficou sabendo da cerimônia?

- Através dos amigos que a gente tinha naquela época, pessoas que gostavam das idéias revolucionárias do Che.

- Ah! E nessa reunião política que o senhor participou, o que o Che falou?

- Ele falou muito sobre a maneira de guerrilha, mas não citou revolução armada, não. A intenção do Che era tirar esses comandantes que estavam há muitos anos no poder e não faziam nada. Ele queria dar igualdade para toda a sociedade, para todo o Brasil. O modo era difundir os ideais e aumentar o número de simpatizantes para se chegar a uma mudança.

- Quem estava lá?

- Tinha muito estudante da Escola Técnica, muito simpatizante, nome eu não sei te passar.

- Não tinha ninguém que hoje é conhecido politicamente?

- Não, tinha duas pessoas que eram conhecidas, mas na época da revolução sumiram com eles.

- Quem eram?

- Zé, a gente chamava de Zé, sabe. Sumiu no golpe de 64.

- Como o senhor ficou sabendo que o Che vinha para esse encontro político em Goiânia? Foram os amigos?

- Foi, foi, amigos do partido (Partido Comunista Brasileiro - PCB).

- E o senhor participava dos encontros do PCB?

- De alguns, mas eu não era membro. Estive presente, por exemplo, quando o Luis Carlos Prestes veio aqui na Vila Nova.

Prestes? Acho que fiz cara de boba novamente...

- Antes do Che, ele foi um dos que mais divulgou o comunismo. Era aqui pertinho de nossa casa, e eu ia. Mas eu era muito jovem, eu não tinha uma clareza do que eu...

- Quantos anos?

Eita! Interrompi a fala do meu entrevistado. Péssimo hábito de jornalista...

- Eu devia ter uns 12, 13 anos.

- Quantas vezes o Prestes veio em Goiânia?

- Que eu tenho conhecimento, umas duas vezes. Foi na casa do Anísio, um senhor comunista que morava na 10ª Avenida.

Não sei você, mas eu fiquei até um pouco sem fôlego enquanto conversava com seu Alberto. E pensar que um simples retrato desencadeou a descoberta, para mim inédita, de que Che esteve em Goiânia. A imagem estava lá: o rosto do revolucionário meio azulado, a boina, o cavanhaque, tudo em primeiro plano num pequeno quadro de fundo branco. O objeto, encostado na bancada lateral do ponto onde seu Alberto se tornou o Rei das Empadas...

*****
Hum! Cheirinho de tempero no ar

06h05. Telma, a funcionária de Seu Alberto responsável por tirar a pele, cozinhar, desossar e desfiar 53 quilos de frango, além de cortar três quilos de cebola, dois de pimentão e quatro de repolho diariamente, chega ao mercado. A jovem de 28 anos cumprimenta o patrão, coloca um avental branco por cima da blusa roxa que vestia, e uma touca para acomodar os cabelos.

- Você me faz um favor? - Pergunta a ela.

- Corta o queijo para mim.

Ela na pia, com o queijo. Ele no fogão, mexendo a panela. Um barulho repentino - que eu confesso não ter identificado de onde veio. Motivo suficiente para seu Alberto fazer graça, mesmo com o tom de voz baixinho que lhe é peculiar - muitas vezes é necessário, inclusive, inclinar os ouvidos para compreendê-lo:

- Você veio nesse avião, Telma?

Ela sorri discretamente. As horas seguem, os afazeres continuam, um cheirinho gostoso de hortelã, proveniente da massa do quibe, invade o local. Chega Silvana, não chega Reginaldo, chega Amâncio no lugar de Reginaldo, chega Reginaldo, não chega Marli, e também não chega ninguém no lugar de Marli. Alberto trabalha com o apoio de quatro funcionários - Telma, Silvana, Marli e o pasteleiro Reginaldo - e dos filhos Amâncio e Paloma, que cumprem expediente à tarde, quando o pai deixa o mercado, depois das 13 horas. Naquele primeiro de julho, Marli não trabalhou por problemas pessoais. Reginaldo tinha avisado que provavelmente faltaria porque estava fazendo uns exames. Amâncio foi cobrir a vaga de Reginaldo, que, às 8h30, apareceu no mercado.

- Ah, olha lá pai, ele tá até bronzeado – não titubeia Amâncio, referindo-se à cor da pele de Reginaldo.

Seu Alberto olha para o funcionário, com ele há oito anos, o mais antigo dos quatros, e sorri. Mas um aviso no balcão de atendimento dá indícios de que o relacionamento entre os dois anda instável. “Precisa-se de pasteleiro com urgência”, diz o cartaz, pregado no local na sexta-feira, 27 de junho.

Contratempos à parte, é dia de vender. Dez minutos antes de o mercado abrir, 06h50, Alberto veste um jaleco branco com botões pretos, parecido com esses que os chefs de cozinha utilizam. A indumentária, um pouco amarrotada, vem com o nome do comerciante bordado no lado esquerdo do peito e com as bandeiras do Brasil e dos Estados Unidos nas mangas.

O primeiro cliente chega e pede dez empadas para levar. É só o começo. Diariamente, segundo as contas do seu Alberto, são vendidas mais de 900 empadas - a preferência é pela de frango (R$ 1,80), seguida pela de camarão, bacalhau e, por último, palmito (todas essas R$ 2,50). Pastéis, são cerca de 300 (R$ 1,80). Já o número referente às bebidas é repassado por Reginaldo. São seis caixas de coca 290 ml (com 24 unidades cada), uma caixa de fanta 290 ml, uma caixa de coca light 290 ml, 30 unidades de guaraná caçulinha, 24 unidades de coca 600 ml e 24 unidades de coca zero 600 ml.

Para conseguir atender a demanda de fregueses, o ritmo da equipe tem de seguir sincronizado por mais de dez horas. Telma desfia o frango e cuida da salada - novidade trazida por seu Alberto depois que observou que o item fazia sucesso na banquinha de japoneses. Marli e Silvana recheiam e desenformam as empadas. Reginaldo fica por conta dos pastéis, quibe e da reposição do refrigerante. Amâncio e Paloma cuidam do atendimento no período vespertino. E Alberto acorda às 3 da manhã para deixar tudo preparado - ele está no mercado, em média, uma hora e meia antes dos donos das outras lojas -, fica atento aos pedidos - e confia nos clientes, já que não entrega comanda -, dá troco, arruma a estufa e por aí vai... Sempre em pé.

- Já falei para o médico que este é meu exercício físico... Mas ele diz que não vale, que eu tenho de fazer um de maneira ordenada...
*****
Inspiração para a vida

Pode até não parecer, mas a forma como seu Alberto se posiciona no balcão – ele encosta o cotovelo em cima da estufa e fica de perfil – é estratégica. Desse modo, consegue enxergar, de longe, os clientes que ainda estão dobrando o corredor que dá acesso à área de alimentação do mercado. Olhar fixo.

- Tem que ser assim para eu atender todo mundo, de forma rápida...

- Oi, seu Alberto, cheguei um pouquinho atrasada, diz uma moça de blusa rosa, R$ 2 na mão.

Antes mesmo de fazer o pedido, seu Alberto lhe entrega o pastel de sua preferência.

- Bom dia, é outra cliente jovem, loira, professora.

Alberto lhe serve a empada de frango.

O fluxo não cessa. Professores, estudantes com cadernos nas mãos, corretores de imóveis, crianças pequenas com mães, meninos arteiros com pais, engravatados, publicitários. O aglomerado em frente ao número 332 contrasta com os espaços vazios das bancas vizinhas. Seu Alberto cumprimenta a todos - com um olhar discreto ou um sorriso arrebatador -, entrega o refrigerante sem a tampinha para o freguês, guarda o capacete de motoqueiros, fica sério, fica em silêncio. Ele diz apreciar a ausência de sons.

- É quando aproveito para conversar comigo mesmo.

Segredos. Alguns impenetráveis. Outros dolorosamente superados. Uma separação conjugal (embora não sacramentada no papel). A perda do filho Alberto Júnior em um acidente de carro (o menino tinha dois anos e estava, no automóvel, sentado no colo do pai). A morte da filha mais velha Juliana, aos 31 anos, de hantavirose, doença transmitida por ratos silvestres – a jovem chegou a fazer o curso superior que Alberto ansiava para si próprio, Psicologia. (Ele parou de estudar no primeiro ano do científico). Se não consegue seguir à risca às ordens médicas de fazer exercícios regulares, pelo menos dos conselhos para a alma ele parece não se desvencilhar.

“Esforce-se pela felicidade, para ser amado e amar e, mais importante, para adquirir paz de espírito e serenidade.”

Na frase, presente no best-seller O maior vendedor do mundo, de Og Mandino, um dos livros preferidos de seu Alberto, a inspiração para a vida. A revolução. Que um jovem admirador de Che, aos 20 anos, não sabia ser tão simples de fazer.

1 comment:

Cristina said...

Oi Carla! Que delícia de texto, comparável à empada do Seu Alberto. Já tive o prazer de entrevistá-lo, mas não com toda essa imersão... Parabéns!