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Tuesday, November 03, 2009

Mais sobre "Despertada pela Vida"

Os óculos grandes davam um peso ao rosto fino e magro. Ela fingia que não se importava. Mas já havia deixado uma brecha romper no valor de sua autoimagem. Magricela. Feinha. Era assim que Carla se via. Com óculos. Quando os tirava, entretanto, descobria, mesmo que de forma efêmera, sua beleza. Escondida, entulhada por comentários na infância que a fizeram acreditar numa realidade que não existia. Não, não conseguiram sufocá-la. A libertação começara paulatinamente. Aos 11 anos. A escrita, a reinvenção, a primeira obra – que para ser minha mesma, não poderia terminar completa. Por enquanto.

“Despertada pela vida” me fez sentir o prazer de caminhar pelas veredas da imaginação. Cláudia, a personagem principal, era bela. Mas pobre. Não sei por qual razão, mas achava que seria bom colocar um pouco de sofrimento e dificuldades na história da jovem. Talvez, porque assim a superação dos desafios, a virada, a guinada, teriam mais valor. Não sei. Pode ser. Pode não ser. Não sei o que pensava Carla aos 11 anos. Ou não me recordo. Ao certo.

Ah, mas tem uma coisa que volta nitidamente. Carla queria dedicar o livro à avó materna, Lucy Henriques de Lacerda. Por isso, escrevia rápido rápido rápido rápido rápido rápido. Ela não tinha tempo para vírgulas. Não queria que a morte chegasse antes que seu livro na Rua Floriano Peixoto, em Uberaba (local onde sua avó ainda mora). Tinha que terminar logo. Mas eram tantos os empecilhos - os reais e os da mente... Minto. Não eram muitos, não. Acho que, na verdade, era a cabecinha de Carla que os criava e os fomentava constantemente. Era como se ela tentasse se sabotar. Inconscientemente.

Mas pelo menos de um percalço concreto, nesta fase inicial de produção, ela se recorda. Enquanto subia e descia as escadas de carpete do sobrado da Rua 15 e dava voltas ao redor da casa de sua avó paterna, atrás da tão propalada inspiração (se lembram do post anterior?), pessoas próximas começaram a querer dar sugestões na obra. Falavam para colocar num capítulo um lance de um namoro assim e assado. Pra falar do Guns N’ Roses (?!). Para citar um encontro entre dois enamorados na Praça do Sol. E etc. Carla até pensou em inserir tais episódios. Mas eles soavam fake – embora ela nem soubesse que essa palavra existia. Não condiziam com sua realidade, com a forma como via o mundo. Decidiu que era melhor abortar a ideia. Retirou as sugestões alheias. Rasgou parte do chamex. E tornou a reescrever “Despertada pela Vida”. Agora num caderninho de arame, de capa verde, que permanece guardado em uma caixa de sapatos e com algumas folhas ainda em branco...

Continua

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