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Monday, March 25, 2013

2 - Pres(sentimento) de Mãe


Minha mãe sempre sonhou em ser avó. E no final de 2011 foi ela quem me deu um presente: a manta que bordou para mim quando eu era bebê. Ato profético. Assim como o encarte do Correio Braziliense que ela colocou escondido na minha bolsa quando eu e o Thiago passamos um final de semana com ela e com as meninas em Brasília (minhas irmãs, Renata e Camila, serão sempre meninas pra mim). A chamada da capa da Revista do Correio - o caderno de cultura do jornal - do dia 29 de abril de 2012 era a seguinte: “A agitada vida do senhor bebê – Inglês, música, jogos... Descubra a dose certa de estímulos para o seu filho”. Quando cheguei em Goiânia e abri a bolsa, qual não foi a minha surpresa!

 - Como isso veio parar aqui?

 - Sua mãe colocou na bolsa sem ninguém ver.

É, na verdade, quaaaase ninguém viu. Dos olhos observadores do Thiago, Reca (apelido de mamãe) não conseguiu escapar.

E eu abri um sorriso enorme ao imaginar a cena. O cuidado, o zelo, a atenção, a preocupação de dona Regina com sua filha mais velha. A sua fé.

Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem. (Hebreus 11:1)

Mamãe nunca duvidou que eu seria mãe. A manta e o encarte do Correio me foram dados antes de eu engravidar, o que ocorreu em maio de 2012. Mês do seu aniversário. Mês também em que ela engravidou de mim, há pouco mais de três décadas. Mês das mães.

 - É claro que você vai ser mãe, Carla.

Era como se ela lesse meus pensamentos e retirasse o receio que eu tinha – e acredito que a maioria das mulheres já pensou nisso pelo menos uma vez na vida – de não vivenciar a maternidade. Olha que ela nem sabia que há dois anos eu havia suspendido o anticoncepcional e que um ovário micropolicístico adiava, de forma inexplicavelmente macro, meu sonho de ter um bebê.

Mas, em maio de 2012, aconteceu. E também em maio de 2012, o resultado – pasmem! - deu negativo, mesmo eu estando grávida. A pedido da minha médica, repeti o exame. No dia 15 de junho, nossa redenção. Eu e Thiago, paralisados em frente ao computador.

 - Carla, você tá grávida! Carla, você tá grávida! Carla, você tá grávida! – Thiago repetia sem parar.

Eu não acreditava. E, sim, meus olhos se encheram de lágrimas. Lágrimas que rapidamente lavaram aquelas memórias de resultados negativos de outrora – conferidos dentro do carro em frente ao laboratório, no nosso quarto, ou depois de um dia de trabalho na Prefeitura de Aparecida de Goiânia.

Grávida, eu começava a me imaginar grávida! Nossa, a ficha não caía.

Êxtase total. Euforia total. Ao ligar para a minha médica: “Dra. Samira, o que eu preciso fazer agora? Que dia marcamos o ultrassom? Que dia posso ir aí no consultório? E o raio-X que fiz quando quebrei o dedão do pé (no dia 2 de junho)? Pode ter feito mal para meu filho?”. Ao ligar para meu endócrino: “Continuo tomando o Puran T4? (remédio usado para controlar o hipotireoidismo). Mais alguma recomendação quanto à minha alimentação?”. Ao ligar para minha terapeuta: “Dra. Jane, estou grávida!!!!!!!!”.

Começamos uma corrida interna. E externa. E eu com aquelas botas ortopédicas lindas de morrer! (Segunda vez em quatro meses que usei a bendita; no começo do ano, havia torcido meu pé no estacionamento da Agência Goiana de Comunicação – Agecom). Mas enfim: com bota ou sem bota, mancando ou não, a meta era organizar tudo para dar a notícia em primeira mão para mamãe e para as meninas. Fiz o ultrassom. Cheguei antes na capital federal. Thiago, na sexta-feira, 22 de junho, depois do expediente, com a caixa amarela. Horas antes, eu havia conversado com a oncologista da mamãe, Dra. Daniele Assad, no corredor do Hospital Brasília. Queria saber se podia contar a novidade naquele mesmo dia, quando estava marcada a primeira sessão de quimioterapia da vovó mais linda do mundo.

 - Olha, Carla, acho que hoje ela já vai ter muita adrenalina. Mas vocês podem avaliar melhor. Ela vai ficar muito feliz! – observou Dani, como minha mãe costumava chamar carinhosamente a oncologista.

 - Parabéns! – complementou ela, ao me dar um abraço forte e afetuoso.

Eu e Thiago conversamos com as meninas. Antes de mostrar a caixa amarela para a mamãe, mostramos para elas. Renata e Camila sorriram. Choraram. Nos abraçaram.

Acendemos a luz do quarto.

 - Mãe, olha o presente que a Carla trouxe pra gente...

(Continua).

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