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Monday, April 08, 2013

4 - O início da descoberta


*As datas de todos os textos se referem ao ano de 2012.

A BR-060, entre Goiânia e Brasília, nunca foi tão extensa. Duas horas, duas horas e meia de percurso? Não, para mim foi simplesmente uma eternidade. De angústia. De ansiedade. De preocupação. De medo. De tensão. Era difícil controlar o pensamento.

 - Senhor, por favor, que eu possa ver a minha mãe! Senhor, permita que eu veja a minha mãe!

Eu não imaginava o que estava por vir, mas, sim, temi o pior. A madrugada não tinha sido boa. O dia anterior à viagem, 21 de março*, aliás, não foi nada aprazível. Já no meio da manhã, sobrancelhas franzidas na primeira conversa que tive por telefone com a Renata. Eu estava saindo da sala de cinegrafia da TV Brasil Central quando nos falamos pela primeira vez.

 - Vamos levar a mamãe ao psiquiatra novamente e depois ao INSS para tentar uma licença médica.

No início do mês, minha mãe tinha apresentado sinais de estresse, estafa e confusão mental. Imaginamos que poderia ser um princípio de depressão, em função de outras crises que ela já havia passado anteriormente. Mas os medicamentos prescritos pelo médico não surtiam efeito. O quadro de mamãe piorava: ela começava a ter problemas de fala, memória e coordenação motora.

- Carla, o doutor Marcelo pediu uma tomografia de crânio com urgência.

Novamente Renata me mantinha informada. Elas seguiram para o INSS; os peritos deram licença médica para mamãe. Ela realmente não estava bem.

À tarde, eu ainda na TV, tensa, preocupada, e uma nova ligação.

 - Tia Vera (irmã de minha mãe) falou com o doutor Marcelo. Parece que ele suspeita de princípio de AVC (acidente vascular cerebral). Estamos todas indo para o Hospital Santa Luzia.

Eu não acreditava. Andava de um lado para o outro no pátio interno da Agecom. AVC? Minha mãe? Como assim?

No carro, antes de engatar a primeira e seguir para casa, liguei pra Renata de novo. Eram por volta das 18 horas.

 - Ainda estamos esperando para sermos chamadas para o exame.

Gente, como assim? – pensava. A tomografia não é de emergência?

Segundos, minutos, horas se passaram. Só a minha agonia que não.

Pouco mais de 21 horas. O telefone toca. Thiago atende. Eu o observo, o semblante é sério.

 - Anhan.

 - Anhan.

 - Anhan.

 - E Renata...

 - U.T.I.

São essas as poucas palavras das quais me lembro daquele dia...

 - U.T.I.

Ú.Tê. I. Ú.Tê. I. Ú. Tê. I. Sua mãe precisa de uma Ú.Tê. I.

As letrinhas antipáticas reverberavam, sem parar, sem parar, sempararsempararsemparar na minha mente. E eu já estava aos prantos.

- Calma, Carla! Calma, Carla.

Após desligar o telefone, Thiago teve a árdua tarefa de tentar me tranquilizar.

 - O exame ficou pronto, amor. Sua mãe está com uma lesão na cabeça. Mas fique tranquila, ela está no hospital, está sendo assistida. Vai ficar tudo bem!

E nós caímos de joelho. Oramos. Clamamos.
          
Meu choro, ora intenso, ora sussurrado, não conseguia espantar meu medo. O telefone tocou novamente. E a situação, que já era insuportavelmente difícil, ficou inacreditavelmente dolorosa. Faltava uma semana para vencer o tempo de carência do plano de saúde da minha mãe. O hospital não aceitava interná-la. Para ela ficar lá, pediram R$ 10 mil.

 - A gente pega um empréstimo amanhã, Renata, a gente se vira, mas pode internar a mamãe.

Poucos minutos depois, novo telefonema.

 - Carla, estão pedindo R$ 50 mil agora. E só para começar.

Choro em Brasília. Choro em Goiânia. Choro durante o percurso Goiânia-Brasília. E a BR-060 nunca foi tão extensa.

(Continua). 

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